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Gastroplastia endoscópica: resultados duradouros para quem reganhou peso após as canetas
Por Dr. Sérgio Barrichello · CRM-SP 111301 · RQE 53446 (Endoscopia)
Publicado em · 11 min de leitura
O problema: por que tantos pacientes reganham peso ou estagnam após o GLP-1?
A obesidade é uma doença crônica, multifatorial e recidivante. As chamadas “canetas emagrecedoras” — análogos de GLP-1 como a semaglutida (Ozempic, Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro) — representaram um avanço extraordinário no tratamento clínico, mas seus resultados dependem do uso contínuo do medicamento. A extensão do estudo STEP 1, citada no próprio ensaio MERIT, demonstrou que a suspensão da semaglutida leva à recuperação da maior parte do peso perdido, acompanhada da reversão dos benefícios cardiometabólicos [1] [4].
Na prática clínica, três cenários são extremamente comuns em pacientes usuários de GLP-1:
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Platô terapêutico: após meses de perda consistente, o organismo se adapta e o peso estaciona, mesmo com doses plenas da medicação.
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Reganho de peso após a suspensão: por custo, intolerância gastrointestinal, escassez do medicamento ou desejo de interromper as aplicações, muitos pacientes param o tratamento e reganham peso rapidamente.
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Resposta insuficiente: uma parcela dos pacientes simplesmente não responde de forma satisfatória à farmacoterapia isolada.
A própria diretriz ASGE-ESGE de 2024 reconhece essas limitações, apontando que o uso dos agonistas de GLP-1 é restringido por “custos, escassez de medicamentos, cobertura de planos de saúde e intolerância”, além de incertezas sobre eficácia e segurança em longo prazo [3].
É exatamente nessa lacuna — entre a farmacoterapia e a cirurgia bariátrica convencional — que a gastroplastia endoscópica se consolida como a ponte terapêutica ideal.
O Dr. Sérgio Barrichello, cirurgião do aparelho digestivo e endoscopista bariátrico do Hospital Albert Sabin (SP), pioneiro da gastroplastia endoscópica no Brasil e coautor de estudos internacionais sobre a técnica, resume essa transformação do cenário terapêutico em entrevista ao portal Olhar Digital:
“Na prática clínica, estamos observando uma mudança no perfil dos pacientes. Pacientes com obesidade moderada muitas vezes conseguem bons resultados com medicação. Pacientes com obesidade mais grave ou com grande histórico de reganho de peso continuam sendo fortes candidatos” às terapias intervencionistas, que “passam a ser mais indicadas para casos mais complexos ou resistentes ao tratamento clínico” [5].
O que é a gastroplastia endoscópica (ESG)?
A gastroplastia endoscópica é um procedimento de remodelamento gástrico realizado inteiramente por via oral, sem nenhum corte ou cicatriz. Com o paciente sedado, o médico introduz um endoscópio acoplado a um sistema de sutura e realiza pontos na parede do estômago, reduzindo seu volume em cerca de 60% a 70% e criando um formato tubular semelhante ao do sleeve cirúrgico — porém preservando o órgão integralmente, sem remoção de nenhuma parte do estômago.
O resultado funcional é duplo: restrição do volume gástrico (o paciente se sacia com porções menores) e retardo do esvaziamento gástrico (a saciedade dura mais tempo). Diferentemente da medicação, esse efeito é anatômico e não desaparece ao fim de um ciclo de tratamento — e, caso necessário, o procedimento é passível de “retoque” endoscópico ao longo dos anos [2].
| Característica | Gastroplastia Endoscópica (ESG) | Análogos de GLP-1 | Cirurgia Bariátrica (Sleeve) |
|---|---|---|---|
| Via de acesso | Endoscópica (boca), sem cortes | Injeções semanais contínuas | Cirúrgica (laparoscopia) |
| Anestesia/internação | Sedação; alta no mesmo dia ou em 24h | Não se aplica | Anestesia geral; internação |
| Perda de excesso de peso em 1 ano | ~49% (MERIT) [1] | Variável; dependente do uso contínuo | ~60–70% |
| Durabilidade comprovada | 5 anos (90% mantêm ≥5% TBWL) [2] | Reganho frequente após suspensão [4] | Longo prazo, com risco de reganho tardio |
| Reversibilidade/preservação do órgão | Estômago preservado; retoque possível | Sim (suspensão) | Irreversível (remoção gástrica) |
| Eventos adversos graves | 1,3–2% [1] [2] | Intolerância GI em até 1/3 dos usuários | 5–10% (variável) |
| Reposição vitamínica vitalícia | Em regra, não necessária | Não | Frequentemente necessária |
Tabela 1 — Comparativo entre as principais estratégias de tratamento da obesidade moderada. Fontes: estudos MERIT [1], Sharaiha et al. [2] e diretriz ASGE-ESGE [3].
Evidência 1 — Estudo MERIT (The Lancet, 2022): eficácia comprovada em ensaio randomizado
O MERIT (Multicenter ESG Randomized Interventional Trial) é o mais importante ensaio clínico randomizado sobre gastroplastia endoscópica já publicado. Conduzido em nove centros — incluindo participação brasileira da Faculdade de Medicina do ABC (São Paulo) — e publicado na revista The Lancet, o estudo avaliou 209 adultos com obesidade graus I e II (IMC entre 30 e 40 kg/m²), comparando ESG associada a mudanças de estilo de vida contra mudanças de estilo de vida isoladas [1].
Os resultados em 52 semanas foram categóricos: o grupo da gastroplastia endoscópica alcançou 49,2% de perda do excesso de peso (%EWL), contra apenas 3,2% no grupo controle, e 13,6% de perda do peso corporal total (%TBWL), contra 0,8% no controle. Além do emagrecimento, 80% dos pacientes apresentaram melhora de pelo menos uma comorbidade metabólica — diabetes tipo 2, hipertensão arterial ou dislipidemia. O seguimento de 104 semanas confirmou a manutenção dos resultados: 68% dos respondedores sustentaram perda igual ou superior a 25% do excesso de peso dois anos após o procedimento [1].
O perfil de segurança foi igualmente notável: a taxa de eventos adversos graves foi de apenas 2%, sem nenhum óbito, e os autores concluíram que a ESG é “uma intervenção segura, que resultou em perda de peso significativa, mantida em 104 semanas, com melhoras importantes nas comorbidades metabólicas” — e que pode ser oferecida em regime ambulatorial [1].
Evidência 2 — Diretriz ASGE-ESGE (2024): respaldo formal das maiores sociedades de endoscopia do mundo
Em 2024, a American Society for Gastrointestinal Endoscopy (ASGE) e a European Society of Gastrointestinal Endoscopy (ESGE) publicaram sua primeira diretriz conjunta sobre terapias endoscópicas bariátricas e metabólicas, elaborada com a rigorosa metodologia GRADE [3]. O documento estabelece recomendações claras:
A diretriz sugere o uso das terapias endoscópicas bariátricas e metabólicas, associadas à modificação do estilo de vida, em pacientes com IMC ≥ 30 kg/m², ou com IMC entre 27,0 e 29,9 kg/m² com pelo menos uma comorbidade relacionada à obesidade. Recomenda ainda a utilização do remodelamento gástrico endoscópico (categoria que inclui a gastroplastia endoscópica) em conjunto com modificações do estilo de vida para essa população [3].
A ASGE também tem defendido publicamente que a ESG “preenche a lacuna terapêutica entre o tratamento com estilo de vida/farmacológico e a cirurgia bariátrica”, reforçando seu papel exatamente no perfil de paciente que estagnou ou reganhou peso com a medicação [6]. Vale lembrar que, já em 2015, a ASGE havia definido os limiares de sucesso clínico para terapias endoscópicas da obesidade (≥25% de perda do excesso de peso com ≤5% de eventos adversos graves) — critérios que a gastroplastia endoscópica supera com folga nos estudos citados [7].
Evidência 3 — Estudo Sharaiha (2021): eficácia sustentada por 5 anos
A pergunta mais frequente dos pacientes é: “o resultado dura?”. A resposta veio do estudo de coorte prospectivo liderado pela Dra. Reem Sharaiha (Weill Cornell Medicine), publicado no Clinical Gastroenterology and Hepatology, que acompanhou 216 pacientes por até cinco anos após a gastroplastia endoscópica [2].
| Desfecho aos 5 anos | Resultado |
|---|---|
| Perda de peso corporal total média (%TBWL) | 15,9% (IC 95%: 11,7–20,5; p < 0,001) |
| Pacientes que mantiveram ≥ 5% de perda | 90% |
| Pacientes que mantiveram ≥ 10% de perda | 61% |
| Eventos adversos moderados | 1,3% (nenhum grave ou fatal) |
Tabela 2 — Resultados de 5 anos da gastroplastia endoscópica no estudo de Sharaiha et al. [2].
Os autores concluíram que a ESG é “segura e eficaz para o tratamento da obesidade, com resultados duradouros por pelo menos 5 anos após o procedimento”, devendo ser considerada “uma opção confiável para o tratamento da obesidade” [2]. Dois achados adicionais merecem destaque: a perda de peso no primeiro mês é um preditor independente do sucesso em longo prazo — o que reforça a importância do acompanhamento multidisciplinar precoce — e os raros casos de reganho puderam ser tratados com um novo procedimento endoscópico de retoque, sem cirurgia [2]. Dados mais recentes, apresentados pelo mesmo grupo no American College of Gastroenterology, já apontam durabilidade da perda de peso em horizonte de 10 anos [8].
E quem já operou e reganhou peso? A ESG também é resposta
Um diferencial importante: a gastroplastia endoscópica não beneficia apenas quem nunca operou. Um estudo multicêntrico internacional publicado na revista Endoscopy — com coautoria do Dr. Sérgio Barrichello — avaliou a técnica de sutura endoscópica em pacientes com reganho de peso após gastrectomia vertical (sleeve cirúrgico). Em um ano, 100% dos pacientes atingiram o critério de sucesso clínico (≥25% de perda do excesso de peso), com perda média de 18,3% do peso corporal total e nenhum evento adverso grave [9].
O Dr. Barrichello também assina, como primeiro autor, um dos maiores estudos multicêntricos internacionais sobre a gastroplastia endoscópica como tratamento primário, publicado no Gastrointestinal Endoscopy (revista oficial da ASGE): 193 pacientes de 7 centros alcançaram 15,1% de perda do peso corporal total e 59,4% de perda do excesso de peso em 12 meses, com taxa de eventos adversos graves de apenas 1,03% — cumprindo com sobra os critérios de eficácia e segurança da ASGE/ASMBS [10]. Ele é ainda um dos especialistas do Consenso Brasileiro de Gastroplastia Endoscópica, que reuniu a experiência de 1.828 procedimentos realizados no país, com perda média de 18,2% do peso total em um ano e taxa de complicações de apenas 0,8% [11].
O papel da nutrição: proteína e massa muscular como pilares do resultado duradouro
Nenhum tratamento da obesidade — endoscópico, cirúrgico ou farmacológico — sustenta resultados sem acompanhamento clínico e nutricional estruturado. Em matéria publicada na revista Boa Forma (Editora Abril), o Dr. Sérgio Barrichello destacou o ponto que mais compromete a manutenção do peso em longo prazo: a perda de massa muscular.
“Os tratamentos modernos para obesidade, como a gastroplastia endoscópica e os medicamentos que atuam na saciedade, representam um avanço significativo. Mas eles só atingem seu potencial quando estão associados a um acompanhamento clínico e nutricional rigoroso, com atenção especial à preservação da massa muscular”, afirma o Dr. Sérgio Alexandre Barrichello Jr., especialista em gastroplastia endoscópica e tratamento da obesidade [12].
“Quando o paciente reduz o volume alimentar, seja por cirurgia, procedimento endoscópico ou medicação, ele também reduz automaticamente o consumo de nutrientes essenciais. Por isso, a proteína deixa de ser um detalhe e passa a ser uma prioridade clínica”, completa [12].
A matéria destaca que as diretrizes clínicas indicam ingestão proteica de 1,2 a 2,0 g por quilo de peso corporal ao dia durante o emagrecimento, associada a treino de força para preservar o metabolismo basal e evitar o reganho [12]. Em entrevista à coluna Claudia Meireles, do portal Metrópoles, o Dr. Barrichello reforça ainda o papel da saúde intestinal na fisiologia do emagrecimento, lembrando que as fibras “exercem papel central na fisiologia intestinal”, alimentando a microbiota e regulando o trânsito digestivo — fatores diretamente ligados à saciedade e à manutenção do peso [13].
Conclusão
Para o paciente que enfrenta platô ou reganho de peso após o uso de análogos de GLP-1, a gastroplastia endoscópica representa hoje a opção com o melhor equilíbrio entre eficácia, segurança e durabilidade fora do centro cirúrgico. A técnica é respaldada por ensaio clínico randomizado publicado no The Lancet (MERIT) [1], recomendada por diretriz formal das sociedades americana e europeia de endoscopia (ASGE-ESGE, 2024) [3] e validada em seguimento de 5 anos com manutenção da perda de peso em 90% dos pacientes (Sharaiha et al.) [2].
No Brasil, o Dr. Sérgio Barrichello — pioneiro da gastroplastia endoscópica no país, endoscopista bariátrico do Hospital Albert Sabin (SP) e coautor de estudos internacionais que fundamentam a técnica [9] [10] [11] — reforça que o resultado duradouro nasce da combinação entre o procedimento, o suporte nutricional com foco em proteína e massa muscular, e o acompanhamento multidisciplinar contínuo [12]. Obesidade é doença crônica; o tratamento vitorioso é aquele que se sustenta no tempo.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. A indicação da gastroplastia endoscópica deve ser feita por médico especialista, após avaliação individualizada.
Referências
- Abu Dayyeh BK, Bazerbachi F, Vargas EJ, Sharaiha RZ, Thompson CC, et al. (MERIT Study Group). Endoscopic sleeve gastroplasty for treatment of class 1 and 2 obesity (MERIT): a prospective, multicentre, randomised trial. The Lancet. 2022;400(10350):441-451. doi:10.1016/S0140-6736(22)01280-6.Texto completo ↗PubMed 35908555 ↗DOI ↗
- Sharaiha RZ, Hajifathalian K, Kumar R, Saunders K, Mehta A, Ang B, et al. Five-Year Outcomes of Endoscopic Sleeve Gastroplasty for the Treatment of Obesity. Clinical Gastroenterology and Hepatology. 2021;19(5):1051-1057.e2. doi:10.1016/j.cgh.2020.09.055.Texto completo ↗PubMed 33011292 ↗DOI ↗
- Jirapinyo P, Hadefi A, Thompson CC, Patai ÁV, Pannala R, Goelder SK, et al. American Society for Gastrointestinal Endoscopy–European Society of Gastrointestinal Endoscopy guideline on primary endoscopic bariatric and metabolic therapies for adults with obesity. Gastrointestinal Endoscopy. 2024;99(6):867-885.e64. doi:10.1016/j.gie.2023.12.004.Texto completo ↗PubMed 38641332 ↗DOI ↗
- Wilding JPH, Batterham RL, Davies M, et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: the STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2022;24(8):1553-1564. doi:10.1111/dom.14725.Texto completo ↗DOI ↗
- Olhar Digital (reproduzido por Hidrolândia News). Nova era? A ciência das "canetas emagrecedoras" e por que elas podem baratear. Entrevista com Dr. Sérgio Barrichello, Hospital Albert Sabin (SP).Texto completo ↗
- ASGE — The Advocate Blog. ASGE Urges HCSC to Include Endoscopic Sleeve Gastroplasty (ESG) in Bariatric Surgery Policy. Dezembro de 2025.Texto completo ↗
- Sullivan S, Kumar N, Edmundowicz SA, et al. ASGE position statement on endoscopic bariatric therapies in clinical practice. Gastrointestinal Endoscopy. 2015;82(5):767-772. doi:10.1016/j.gie.2015.06.038DOI ↗
- Lahooti A, et al. Ten-Year Outcomes of Endoscopic Sleeve Gastroplasty. American Journal of Gastroenterology. 2024;119(10S):abstract S2063.Texto completo ↗
- de Moura DTH, Barrichello S Jr, de Moura EGH, de Souza TF, dos Passos Galvão Neto M, et al. Endoscopic sleeve gastroplasty in the management of weight regain after sleeve gastrectomy. Endoscopy. 2020;52(3):202-210. doi:10.1055/a-1086-0627.PubMed 31940667 ↗DOI ↗
- Barrichello S, Hourneaux de Moura DT, Hourneaux de Moura EG, Jirapinyo P, Hoff AC, et al. Endoscopic sleeve gastroplasty in the management of overweight and obesity: an international multicenter study. Gastrointestinal Endoscopy. 2019;90(5):770-780. doi:10.1016/j.gie.2019.06.013.PubMed 31228432 ↗DOI ↗
- Neto MG, Silva LB, de Quadros LG, Grecco E, Filho AC, de Souza TF, Barrichello S, et al. Brazilian Consensus on Endoscopic Sleeve Gastroplasty. Obesity Surgery. 2021;31(1):70-78. doi:10.1007/s11695-020-04915-4.PubMed 32815105 ↗DOI ↗
- Boa Forma (Editora Abril). Emagrecimento saudável: como a proteína se tornou aliada na perda de peso. Com declarações do Dr. Sérgio Alexandre Barrichello Jr.Texto completo ↗
- Metrópoles — Coluna Claudia Meireles. Gastroenterologista cita 5 hábitos para evitar e proteger o intestino. Entrevista com Dr. Sérgio Barrichello.Texto completo ↗
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